quinta-feira, 31 de maio de 2012

- UTI. A ANTE-SALA DO ADEUS

É evidente que quando se aborda a elaboração do luto, a referência a essa dependência de um estabelecimento hospitalar somente pode ser no sentido das perdas que ocorrem no mesmo. Um palco de sofrimento para espectadores impotentes como membros da família e amigos que sentem a esperança ser gradativamente minada apesar dos esforços da equipe médica.
Um sofrimento adicional para o paciente, além do perigo iminente da morte, é imposto ao mesmo: a separação do convívio familiar e dos amigos.
Esses espectadores impotentes fazem um curso intensivo do “glossário”de termos habituais do cotidiano local:  
“estável”, “instável”, “intercorrência”, “procedimento”, “intensivista”, enfim, um desfile de palavras que nunca imaginaram fazer parte de uma situação de suas vidas, porém, foram lançados nessa circunstância da vida e da morte com requintes dramáticos. O imponderável surgiu e se tornou senhor da maioria dos pensamentos preocupantes quando alguém querido está no leito.
Aprende que o significado do verbo “ir” é diferente no local. Uma forma de eufemismo para o verbo “morrer” quando frases de consolo relativo podem significar um adiamento da passagem para outro plano de existência:
“ Se fosse mais idoso já teria ido...”. Uma referência à condição de resistência do paciente em estado grave.
Ou em uma resposta para satisfazer a curiosidade humana:
  Infelizmente ele (a) se foi....”  Quando o visitante percebe o leito vazio ao lado daquele do seu ente querido e pergunta para um membro da equipe de enfermagem sobre o motivo dessa situação.

São momentos marcantes para os que viveram esse sofrimento atroz com pensamentos negativos como os que cruzam a mente do familiar ao  contemplar o seu ente querido na despedida quando se encerra o tempo estipulado para a visita (geralmente curtíssimo).
Seria esta visita a última ?
Nos contatos com a equipe médica temos exemplos da habilidade (ou da falta de) dos membros ao dialogar com familiares. Essa gama de perfis vai desde o médico sensível que procura, através da empatia solidária, se colocar no lugar dos espectadores impotentes e sofredores, até aqueles que tem a sutileza de um rinoceronte numa loja de cristais. Infelizmente, este último perfil não é uma raridade no elenco de atores.
Esses momentos que se sucedem nessa ante-sala estarão incrustrados de forma dilacerante na situação de luto e se incorporam à via crucis que vai desde a internação do paciente até a superação relativa da perda.  Essa relatividade, obviamente, está dependente dos fatores tradicionais que caracterizam a individualidade do sofrimento. Cada um tem o seu tempo emocional para a elaboração do mesmo.
Após o sepultamento ou cremação, o estabelecimento hospitalar vira um local a ser evitado mesmo em termos de visualização. Um local que representou o cenário onde uma  pá de cal  foi o epílogo na relação com o ser amado. Até mesmo a via pública onde o mesmo está localizado passa a ser evitada e colocada fora de qualquer itinerário. Simplesmente fora do perímetro do nosso coração martirizado.
Resta a busca do amparo psicológico e espiritual. Um empreendimento que requer a determinação conjugada com a esperança de que a dor é enorme e temos que ser maiores do que ela. O estado de choque inicial é o ponto de partida para a conscientização de que os dias irão avançar no calendário e chegará a hora de retomar a vida e seguir em frente. Um novo capítulo na nossa existência terá o seu início quando usufruir das lembranças guardadas não vai mais simbolizar a angústia e sim a resignação construtiva  com a aura de esperança de um reencontro num futuro imprevisível.
Se recordar é viver, que essa vida seja a ante-sala desse reencontro.
                                                                                                                                  Omar




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