quarta-feira, 23 de maio de 2012

- INVENTÁRIO DE UM LUTO DILACERANTE




Um título pomposo para registrar a essência  da fase posterior a essa tragédia  que maltrata o “que ficou” com a crueldade impiedosa do mais habilidoso dos carrascos: a saudade dolorosa.

Uma situação que se revela atroz, pois a única vantagem imediata parece ser o desabafo do choro e gritos nos momentos de desespero.
O resto é realmente curtir o flagelo da dor com vontade mínima de sobreviver o  que conduz à certeza de que aquele que  foi, simplesmente foi deletado de sua vida e passa a gerar memórias da felicidade em comum exterminada,  as quais somente adicionam combustível nas labaredas desse inferno emocional.
Paredes, mobília e outros detalhes conspiram para que o ambiente se transforme num show-room de recordações de intensa dor que somente as escassas horas de sono  podem trazer um alívio de fuga.
Uma fuga sempre amparada pela esperança de sonhar com a outra parte que foi arrebatada pela natureza implacável da morte. Aquela que invade lares harmoniosos e envolve em trevas uma relação feliz e iluminada. Cruel, muito cruel.
A iminência de se afundar nesse mar de dor se transforma em desespero que conduz à busca de ajuda de qualquer natureza: literatura, conhecimento de outros que sofrem com dor semelhante, enfim um lenitivo emocional que é em parte ilusório, pois em grande parte dos casos a ajuda médica e medicamentos prescritos parecem se constituir na bóia nesse Tsunami avassalador que traz a certeza absoluta de que a vida jamais voltará a ser a mesma.
Opções religiosas existem, porém, parecem amparar somente aqueles dotados da fé absoluta e inabalável nas divindades. Os que não compartilham esse sentimento irracional e, sem dúvida, eficaz, podem encontrar fechada a porta de entrada para essa alternativa. Racionalmente perdidos.
A convicção de que a dor é perene começa a ganhar dimensões importantes na maioria dos pensamentos e que só uma forma diferente de administrar a mesma parece ser a passagem de entrada na grande viagem no tempo. O futuro trará novidades sim.
Hábitos de rotina abandonados pela intensidade do sofrimento serão novamente incorporados à sequência da vida por uma estrada com abundancia de curvas de perigosas: as recaídas que ocorrem quando um avanço ilusório parecia irreversível. Sofrimento adicional sem dúvida.
A passagem dessa fase da vida é realmente a grande aliada dos sofredores. Ela ocorre com a lentidão que turva os pensamentos positivos, porém, felizmente é  ilustrada com a realidade de um sol nascente que surge no horizonte.
A luminosidade virá para aqueles que tiverem a possibilidade de emergir após a exposição ao sofrimento cruel. A saudade passará a ser administrada dentro da sua eternidade e a felicidade que parecia arquivada para sempre poderá ter seus momentos de existência para amparo e tutela da nossa trajetória na passagem por este planeta.
Nenhuma Certidão de Óbito poderá anular essa esperança.



                                              Omar





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