quarta-feira, 23 de maio de 2012

- SINTONIA DE AMOR



Título de um filme maravilhoso estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan que encantou milhões de espectadores na década de 90. Uma história que pode ser resumida pela perda da esposa por parte do personagem de Tom Hanks (Sam) e a sua dor vivenciada no período de luto após 18 meses.
Seu filho Jonah (Ross Malinger), sensibilizado pelo sofrimento do pai e dentro da simplicidade do raciocínio infantil, liga para um programa de rádio apresentado pela médica Marcia Fieldstone para que esta “consiga” uma nova relação amorosa para o pai. Uma esposa.


Nesse contexto, temos o comovente diálogo entre Sam e a apresentadora :


Marcia Fieldstone : O que vc vai fazer ?  (sobre o futuro da sua condição de viúvo).
Sam: Bem, vou levantar da cama toda manhã e respirar o dia inteiro. Depois de um tempo não precisarei lembrar de levantar toda manhã e respirar e não precisarei pensar sobre o quanto minha vida era perfeita.
Marcia Fieldstone: O que sua esposa tinha de tão especial ? 
Sam: Quanto tempo dura o seu programa ?
Eram  milhões de pequenas coisas que, somadas, significavam que devíamos ficar juntos. Eu soube disso na primeira vez que a toquei.
Foi como voltar para um lar. Um lar que eu não conhecia.
Eu apenas peguei a sua mão para ajudá-la a descer do carro. E eu soube. Foi algo mágico.


A vida conjugal movida por uma relação de sintonia muito próxima do que se concebe como “perfeição” acaba gerando vínculos que, quando exterminada de forma abrupta pela morte de uma das partes, se torna um desfile de lembranças de natureza feliz e, que de forma paradoxal, serão uma fonte de intensa amargura.


A amargura da ausência e o realismo cruel de que momentos felizes como um simples passeio num parque não serão mais compartilhados. A solidão em forma de ferida cuja cicatrização está programada para um futuro indefinido. A vontade de ter partido no lugar de quem se foi, como se uma permuta irrealista desse nível pudesse ocorrer.


A dor da perda  conduz a mente a pensamentos danosos como, por exemplo, a felicidade, como uma canção da MPB diz, foi uma pluma que o vento levou pelo ar. Um vento forte que a conduziu para longe. Para um lugar inatingível.


Para variar, a passagem do tempo entra no contexto mais uma vez e um vento no sentido inverso pode trazer essa pluma de volta e transformá-la num boomerang cuja volta ao local de origem do arremesso depende muito de quem arremessou. A sua forma de lidar com a dor evitando sucumbir à mesma quando uma idéia sombria de suicídio parece ser o portal de fuga para escapar do cansaço de sofrer.


Se a esperança existe é para ser cultivada como um escudo na batalha contra a dor. Quanto tempo o(a) guerreiro(a) pode levar para se reerguer é um detalhe que está condicionado a fatores variáveis como suporte familiar, ajuda profissional e outros. O que definitivamente não pode ocorrer é a prostração, ou seja, a rendição à amargura.


Ah, sim. No filme que gerou este texto, Sam encontra um novo amor após um ano e meio de sofrimento. Ele recuperou a sua “pluma” e passa a mensagem de que absolutamente todos flagelados pelo luto tem essa chance que não pode ser desperdiçada. Um elemento de transformação que pode extrair o positivo de uma situação desesperadora desse golpe duro da vida.


Todos temos direito a um ingresso do “Cinema Paradiso”.

                                                       Omar


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