quarta-feira, 23 de maio de 2012

- TRAVESSIA



                  “Quando você foi embora fez-se noite em meu viver. Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar.....”
É evidente que o contexto da canção, uma obra-prima de Milton Nascimento que dá título a esse texto pode ser outro, porém, a colocação poética que evidencia o início de uma dor é incontestável no caso de um diálogo fictício com o ente querido que se foi.
O luto é um período de travessia de duração variável e personalizada. Alguns são consumidos por um pesar excessivamente longo considerando o grau de dependência afetiva em relação à pessoa que se foi,  enquanto outros apresentam uma estrutura emocional de auto-ajuda muito eficaz com resultados positivos em termos de recuperação em questão de poucos meses e transformam o sofrimento em aprendizado ao descobrir forças antes desconhecidas em seu interior considerando o apoio no meio social e familiar, crenças e outros aspectos importantes.
O estágio inicial de choque e negação ocorre quando  se evita acreditar na realidade atroz com a sequência da fase de raiva, revolta que não exclui Deus e, inevitavelmente, muita mágoa. O que não pode ser mudado exerce um poder de desafio muito grande quando a necessidade afetiva conduz a um sentimento irracional de que uma “volta” pode ocorrer.
O apoio no meio social e familiar na situação acima mencionada é motivo de controvérsia. Há opiniões que divergem principalmente sobre  o contexto onde deve ocorrer o desabafo,ou seja, a expressão da dor através  comentários verbais com a presença de um suposto ombro amigo.
Os que opinam que deve ocorrer somente com um terapeuta ou num grupo de ajuda não são poucos, pois alguns amigos, vizinhos  e parentes, num gesto típico da insensibilidade humana, podem passar a se esquivar de quem sofre, exercendo um suposto direito de defesa da amargura alheia e erguer um “escudo” contra o “baixo astral” representado pelo enlutado. Uma realidade tão cruel como a morte que a gerou.
Esse desamparo  é uma fase típica onde supostamente ocorre uma mudança de valores e a pessoa passa a reavaliar seus objetivos de vida. Coisas e situações que antes eram objeto de valorização, passam a ser consideradas fúteis e esse desvio de percurso na travessia pode representar uma mudança positiva na maneira de ser.  Uma evolução que coloca em segundo plano a materialidade das coisas e o verbo “ser” passa a ser uma meta de grandeza espiritual.
É um toque de realismo necessário saber que datas difíceis estarão presentes durante a travessia e a ausência de quem se foi vai marcar presença com uma dor peculiar no Natal, passagem de ano, Páscoa e outros eventos quando a presença do decantado “ombro amigo” representado por parentes e amigos é importantíssima. Tão importante como tentar evitar que o seu comportamento melancólico seja tão intenso a ponto de comprometer o clima alegre onde confraternização impera. São as sutilezas das relações humanas.
Ter a consciência de que nada será como antes não significa abrir mão do direito de ser feliz novamente.
Essa postura racional  pode e deve ser colocada em prática principalmente através da procura de ajuda profissional quando necessária e decisões importantes podem ser tomadas no sentido de ir em busca de momentos felizes. Exatamente aqueles que o ente querido, em outro plano de existência, gostaria que substituissem gradativamente a dor e a sensação de desamparo.
Marcos de conquista irão surgir durante a travessia. O sentimento gratificante da evolução representará o estímulo rumo à superação da tristeza diária quando o amanhecer, antes um símbolo de mais um dia difícil, poderá significar um início de atividades prazeirosas e se constituir na véspera de outro dia feliz. E assim será para todos que lutarem sem trégua contra as agruras do caminho.
Acreditar que a vida pode representar algo além da nossa presença no plano físico, assim como na existência de uma força superior ajuda bastante. É algo instintivo que acompanha o ser humano desde o “abandono forçado” do conforto do ventre materno.
Há grandes evidências da imortalidade do espírito e embora nossa capacidade limitada de entender a razão de muitos acontecimentos seja um obstáculo, é importante ter a consciência de que nada ocorre por acaso.
Com ou sem religiosidade, a crença consoladora de que um reencontro poderá ocorrer em outro plano existencial é o grande poder energético que nos impulsiona para seguir adiante.
Use e abuse dessa energia de acreditar na separação temporária.
Você merece ter esse alento.
                                                       Omar


Nenhum comentário:

Postar um comentário