quinta-feira, 31 de maio de 2012

- UTI. A ANTE-SALA DO ADEUS

É evidente que quando se aborda a elaboração do luto, a referência a essa dependência de um estabelecimento hospitalar somente pode ser no sentido das perdas que ocorrem no mesmo. Um palco de sofrimento para espectadores impotentes como membros da família e amigos que sentem a esperança ser gradativamente minada apesar dos esforços da equipe médica.
Um sofrimento adicional para o paciente, além do perigo iminente da morte, é imposto ao mesmo: a separação do convívio familiar e dos amigos.
Esses espectadores impotentes fazem um curso intensivo do “glossário”de termos habituais do cotidiano local:  
“estável”, “instável”, “intercorrência”, “procedimento”, “intensivista”, enfim, um desfile de palavras que nunca imaginaram fazer parte de uma situação de suas vidas, porém, foram lançados nessa circunstância da vida e da morte com requintes dramáticos. O imponderável surgiu e se tornou senhor da maioria dos pensamentos preocupantes quando alguém querido está no leito.
Aprende que o significado do verbo “ir” é diferente no local. Uma forma de eufemismo para o verbo “morrer” quando frases de consolo relativo podem significar um adiamento da passagem para outro plano de existência:
“ Se fosse mais idoso já teria ido...”. Uma referência à condição de resistência do paciente em estado grave.
Ou em uma resposta para satisfazer a curiosidade humana:
  Infelizmente ele (a) se foi....”  Quando o visitante percebe o leito vazio ao lado daquele do seu ente querido e pergunta para um membro da equipe de enfermagem sobre o motivo dessa situação.

São momentos marcantes para os que viveram esse sofrimento atroz com pensamentos negativos como os que cruzam a mente do familiar ao  contemplar o seu ente querido na despedida quando se encerra o tempo estipulado para a visita (geralmente curtíssimo).
Seria esta visita a última ?
Nos contatos com a equipe médica temos exemplos da habilidade (ou da falta de) dos membros ao dialogar com familiares. Essa gama de perfis vai desde o médico sensível que procura, através da empatia solidária, se colocar no lugar dos espectadores impotentes e sofredores, até aqueles que tem a sutileza de um rinoceronte numa loja de cristais. Infelizmente, este último perfil não é uma raridade no elenco de atores.
Esses momentos que se sucedem nessa ante-sala estarão incrustrados de forma dilacerante na situação de luto e se incorporam à via crucis que vai desde a internação do paciente até a superação relativa da perda.  Essa relatividade, obviamente, está dependente dos fatores tradicionais que caracterizam a individualidade do sofrimento. Cada um tem o seu tempo emocional para a elaboração do mesmo.
Após o sepultamento ou cremação, o estabelecimento hospitalar vira um local a ser evitado mesmo em termos de visualização. Um local que representou o cenário onde uma  pá de cal  foi o epílogo na relação com o ser amado. Até mesmo a via pública onde o mesmo está localizado passa a ser evitada e colocada fora de qualquer itinerário. Simplesmente fora do perímetro do nosso coração martirizado.
Resta a busca do amparo psicológico e espiritual. Um empreendimento que requer a determinação conjugada com a esperança de que a dor é enorme e temos que ser maiores do que ela. O estado de choque inicial é o ponto de partida para a conscientização de que os dias irão avançar no calendário e chegará a hora de retomar a vida e seguir em frente. Um novo capítulo na nossa existência terá o seu início quando usufruir das lembranças guardadas não vai mais simbolizar a angústia e sim a resignação construtiva  com a aura de esperança de um reencontro num futuro imprevisível.
Se recordar é viver, que essa vida seja a ante-sala desse reencontro.
                                                                                                                                  Omar




terça-feira, 29 de maio de 2012

- LÁGRIMA. UM DIREITO LÍQUIDO E CERTO DURANTE O LUTO

Quero chorar e não tenho lágrimas que me rolem na face pra me socorrer......”     (Milton de Oliveira e Max Bulhões) 
Talvez seja difícil encontrar uma forma de expressão mais eloquente da sabedoria popular do que as canções que alcançam o sucesso. Este, uma evidência incontestável de que a mensagem atingiu o alvo nos corações sensíveis de ouvintes da era do rádio no século passado quando a canção, cujo trecho reproduzimos na abertura desse texto, era um sucesso absoluto.

Uma época diferente para os que a viveram quando até o nome de uma doença grave (Cancer) era sussurrado ou até substituido por “doença ruim” porque significava um passaporte para  a viagem sem volta, e por esse motivo, pronunciar o mesmo poderia ser uma atração para a fatalidade. Algo tragicômico visto com nossos olhos de hoje, porém, ocorria pelo principal meio de comunicação da época :  “a voz do povo” . Eficaz porém, às vezes, uma inevitável divulgação da ignorância e nem sempre representava a voz de Deus.
Chegamos, enfim, à palavra certa: ignorância. Aquela mais adequada para definir o comportamento de quem censura e procura reprimir o direito alheio de chorar. Uma reação natural e necessária com o detalhe de que há menção científica no sentido de apontar  que as lágrimas de tristeza são bioquimicamente diferentes das lágrimas provocadas pelo riso e pela felicidade. Um canal de desabafo que ajuda a liberar substâncias químicas do organismo.
Lidar com o sentimento de perda é uma tarefa das mais espinhosas e cooperar com o inevitável, ou seja, a vontade de chorar, uma postura das mais sábias. Uma postura que envolve respeito pela doutrina religiosa que, para reprimir o choro, utiliza como argumento a suposição de que o mesmo pode prejudicar o ente querido que partiu e se encontra no plano espiritual.
Considerando que se trata de de uma perda bilateral, ou seja, para quem “partiu” e para quem “ficou”, é difícil acreditar que a justiça que se origina de uma divindade superior aceitaria que apenas uma das partes tivesse reprimido o seu direito de exposição ao sofrimento visando ultrapassar essa fase de intensa dor. A geração de polêmica   faz parte dessa experiência de vida pela qual todos nós passamos inevitavelmente e parece que estamos diante de mais uma.
Quando se estabelece a polêmica, a Ciência, o grande patrimônio do conhecimento humano se torna uma presença mais do que necessária na questão. A mesma explica que a Depressão, um estado acentuado de angústia que vem acompanhado de uma série de sintomas físicos e psíquicos,  compromete de forma séria a qualidade de vida de quem está em luto e  gera a redução de substâncias necessárias à saúde emocional, principalmente a serotonina e a noradrenalina. A contração da glândula lacrimal, que libera a lágrima, é uma forma de defesa instintiva do organismo.
Ultrapassada a abordagem da polêmica, é mais do que necessário ter a consciência do aprendizado nessa grande aventura que é a vida. A dor pode nos ajudar a ser mais sensíveis em relação aos outros e num determinado momento do futuro esse aprendizado será um importante elemento de ajuda para apoiar alguém que esteja na fase aguda do luto. Nesse apoio jamais poderá ocorrer a repressão ao choro, uma atitude totalmente oposta à solidariedade compassiva.
Vamos forçar uma sequência de rimas  e criar um “slogan” para defesa deste manifesto em defesa do choro:
“No banheiro ou no travesseiro, o choro é tão precioso como o dinheiro”.
                                                       
                                                     Omar




sábado, 26 de maio de 2012

- CONTATOS ILUMINADOS DE PRIMEIRO GRAU - O CONSOLO

    

No Brasil, a interligação entre o plano físico e o plano espiritual assume características que vão desde a intolerância religiosa até o consolo supremo de ter notícias do ente querido que partiu. Essas características especiais são geradas pelo  fato de que os dotados de mediunidade estão quase exclusivamente vinculados a uma doutrina religiosa que somente existe no Brasil e são objeto de crítica implacável por parte de um sacerdote católico espanhol midiático que se vale da ciência para atacar a religião, a qual possui alguns adeptos que pretendem que seja uma ciência. Desde os anos 60 temos presenciado debates acalorados entre as duas partes, porém, este não é o foco principal deste texto.
A travessia do luto envolve muito desespero e a busca dramática do consolo se torna uma necessidade premente. Muitos que antes eram absolutamente céticos em relação à vida após a morte, ao receberem o golpe psicológico grave da perda de um ente querido, mudam radicalmente de posição e saem em busca da Psicografia como o grande alento para resgatar momentos de uma relação interrompida pelo imponderável.
Dotados de mediunidade se dedicam a essa missão caridosa de uma forma abnegada sem qualquer interesse material porque a doutrina à qual estão vinculados tem a caridade como princípio básico e geram uma situação muito diferente de outros países como, por exemplo, nos EUA onde possuidores desse dom e sem religiosidade, o transformam em atividade de prestação de serviços  cobrando por “consulta”. Nas relações humanas é muito comum o desespero alheio se converter numa fonte de renda. Sem dúvida uma situação de dignidade, no mínimo, discutível.
Retomar a vida e seguir em frente se converte na situação de conviver com o nosso “patrimônio emocional” que abriga as lembranças de momentos especiais vividos com o ente querido falecido e essa convivência se torna menos sofrida quando ocorre o consolo supremo mencionado no primeiro parágrafo. A leitura de uma mensagem psicografada com detalhes só conhecidos pela pessoa que se foi é um lenitivo poderoso para enfrentar o flagelo da dor emocional e um elemento de ajuda muito importante para aceitação da morte de um ser amado. Aceitar, neste caso, significa absorver uma realidade e não concordar com a mesma porque uma perda é sempre irreparável.
Se despojar de qualquer preconceito religioso e ir em busca de “notícias” do ente querido deveria ser um procedimento essencial para quem visa lidar emocionalmente com a perda de uma forma mais saudável. Simplesmente reprimir a dor é uma postura nociva e que gera grandes possibilidades de danos à saúde orgânica.
A grandeza dos mistérios  sempre foi  um desafio à espécie humana, porém, partir do princípio racional de que não há sentido em passar por uma existência sofrida do ventre ao túmulo e não existir um mundo que possa representar um verdadeiro renascer ajuda bastante a lidar com a grande transformação representada pela morte do corpo físico.
Há um direito que jamais pode ser deixado em segundo plano: o de acreditar de acordo com a concepção apontada pelo nosso ego. Isso vale para a crença em um mundo que existe após essa transformação onde valores materiais serão subjugados por um jôrro de luz representado por pensamentos de beleza, amor e devoção.

                                                                                                            Omar

quinta-feira, 24 de maio de 2012

- A MORTE NÃO É NADA


Santo Agostinho
                                                           
A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu e vocês são vocês. O que eu era para vocês, continuarei sendo.
Me dêem o nome que vocês sempre me deram.
Falem comigo como sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas.
Eu estou vivendo no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene ou triste.
Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.
A vida significa tudo o que ela sempre significou.O fio não foi cortado.
Por que eu estaria fora de seus pensamentos agora que estou apenas fora de suas vistas ?
Eu não estou longe. Apenas estou do outro lado do Caminho.
Você que aí ficou, siga em frente.
A vida continua linda e bela como sempre foi.

                               Postado por Omar
                             

quarta-feira, 23 de maio de 2012

- SINTONIA DE AMOR



Título de um filme maravilhoso estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan que encantou milhões de espectadores na década de 90. Uma história que pode ser resumida pela perda da esposa por parte do personagem de Tom Hanks (Sam) e a sua dor vivenciada no período de luto após 18 meses.
Seu filho Jonah (Ross Malinger), sensibilizado pelo sofrimento do pai e dentro da simplicidade do raciocínio infantil, liga para um programa de rádio apresentado pela médica Marcia Fieldstone para que esta “consiga” uma nova relação amorosa para o pai. Uma esposa.


Nesse contexto, temos o comovente diálogo entre Sam e a apresentadora :


Marcia Fieldstone : O que vc vai fazer ?  (sobre o futuro da sua condição de viúvo).
Sam: Bem, vou levantar da cama toda manhã e respirar o dia inteiro. Depois de um tempo não precisarei lembrar de levantar toda manhã e respirar e não precisarei pensar sobre o quanto minha vida era perfeita.
Marcia Fieldstone: O que sua esposa tinha de tão especial ? 
Sam: Quanto tempo dura o seu programa ?
Eram  milhões de pequenas coisas que, somadas, significavam que devíamos ficar juntos. Eu soube disso na primeira vez que a toquei.
Foi como voltar para um lar. Um lar que eu não conhecia.
Eu apenas peguei a sua mão para ajudá-la a descer do carro. E eu soube. Foi algo mágico.


A vida conjugal movida por uma relação de sintonia muito próxima do que se concebe como “perfeição” acaba gerando vínculos que, quando exterminada de forma abrupta pela morte de uma das partes, se torna um desfile de lembranças de natureza feliz e, que de forma paradoxal, serão uma fonte de intensa amargura.


A amargura da ausência e o realismo cruel de que momentos felizes como um simples passeio num parque não serão mais compartilhados. A solidão em forma de ferida cuja cicatrização está programada para um futuro indefinido. A vontade de ter partido no lugar de quem se foi, como se uma permuta irrealista desse nível pudesse ocorrer.


A dor da perda  conduz a mente a pensamentos danosos como, por exemplo, a felicidade, como uma canção da MPB diz, foi uma pluma que o vento levou pelo ar. Um vento forte que a conduziu para longe. Para um lugar inatingível.


Para variar, a passagem do tempo entra no contexto mais uma vez e um vento no sentido inverso pode trazer essa pluma de volta e transformá-la num boomerang cuja volta ao local de origem do arremesso depende muito de quem arremessou. A sua forma de lidar com a dor evitando sucumbir à mesma quando uma idéia sombria de suicídio parece ser o portal de fuga para escapar do cansaço de sofrer.


Se a esperança existe é para ser cultivada como um escudo na batalha contra a dor. Quanto tempo o(a) guerreiro(a) pode levar para se reerguer é um detalhe que está condicionado a fatores variáveis como suporte familiar, ajuda profissional e outros. O que definitivamente não pode ocorrer é a prostração, ou seja, a rendição à amargura.


Ah, sim. No filme que gerou este texto, Sam encontra um novo amor após um ano e meio de sofrimento. Ele recuperou a sua “pluma” e passa a mensagem de que absolutamente todos flagelados pelo luto tem essa chance que não pode ser desperdiçada. Um elemento de transformação que pode extrair o positivo de uma situação desesperadora desse golpe duro da vida.


Todos temos direito a um ingresso do “Cinema Paradiso”.

                                                       Omar


- SAUDADE. A PALAVRA QUE O MUNDO NÃO TRADUZIU


    

Quantas despedidas o caro leitor viveu no decorrer da sua existência até os dias atuais ?

Muitas, pois a vida é uma sucessão de encontros e despedidas de importância variada dependendo do grau de afeto envolvido e circunstâncias especiais como alguém querido que passará a residir em outro país.
Essas cenas no aeroporto assumem proporções dramáticas com uma torrente de choro para expressar o nó na garganta que surge quando o que resta é um aceno de adeus e a cruel incerteza de um reencontro. Uma crueldade limitada pela segurança de acreditar de que um dia num determinado ponto do tempo e do espaço aquele que partiu estará ao nosso lado proporcionando bons momentos.

Algo muito diferente dos imigrantes que vinham para o Brasil no início do século passado com a despedida num dia inesquecível que normalmente ocorria num porto marítimo. Familiares e amigos  eram deletados de uma forma irreversível e, entre eles, os que tiveram suas vidas ceifadas nas duas grandes guerras que tiveram o continente europeu como cenário principal. Um mix de esperança e tristeza para os viajantes.

Tudo muito relativo e incomparável com a situação quando  o imponderável acontece e a despedida numa UTI ou no trajeto para um Centro Cirúrgico passa a ser a tragédia que representa uma guinada de 180 graus em nossas vidas quando planos são protelados ou mesmo deletados pela impetuosidade da morte. Aquela que pode gerar a desgraça súbita quando se trata de um acidente fatal.

Dias sombrios passam a ser a sequência  do tempo para os que ficam e a saudade embalada pelo sofrimento, o grande algoz.
O tempo deixa de ter um significado especial. Já não sabe e também não importa se é Domingo ou Quarta-Feira e algumas atividades essenciais passam a ser executadas automaticamente. O cuidado com a aparência e higiene pessoal ficam seriamente comprometidos. Tudo dentro da guinada de 180 graus mencionada no parágrafo anterior com alterações que são a expressão do que há por trás das mesmas: a dor.

Essa é a fase mais difícil do luto. É (dolorosamente) necessário entender que jamais voltaremos a ver o ente querido que partiu para uma jornada sem volta.

Muitos terapeutas estimam em 3 meses o tempo de “aprendizado” para viver sem a companhia de quem faleceu, porém, nas desgraças humanas o tempo é relativo quando sentimentos variáveis de intensidade como o amor estão na questão. É importante ter em mente que o luto é um processo de mudança e a morte determina o encerramento de uma vida, mas não o de uma relação.

Visualizar a morte como uma espécie de castigo é um obstáculo quase intransponível quando se enfrenta o luto e uma ajuda terapêutica profissional se converte numa necessidade urgente para evitar alterações negativas bruscas na saúde como a Depressão e doenças psicossomáticas.

A sensação de etapas vencidas passa a ser evidente quando se passa a lembrar com alegria do ente querido e viver o passado sem amarguras até a cicatrização da ferida.

Não há receita disponível. Batalhas serão perdidas e disputadas novamente até que o sentido da vida seja recuperado em sua plenitude e a coragem para enfrentar novos desafios será a grande parceira para confirmar o prazer de viver e conviver com a saudade, o tema deste texto. Aquela que reserva espaços nostálgicos em nosso coração para lembrar os momentos felizes vividos em momentos e lugares do passado. Uma lembrança serena e sem o flagelo da dor.

Se o tempo é anestésico, vale a pena uma overdose.

                                           Omar

- TRAVESSIA



                  “Quando você foi embora fez-se noite em meu viver. Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar.....”
É evidente que o contexto da canção, uma obra-prima de Milton Nascimento que dá título a esse texto pode ser outro, porém, a colocação poética que evidencia o início de uma dor é incontestável no caso de um diálogo fictício com o ente querido que se foi.
O luto é um período de travessia de duração variável e personalizada. Alguns são consumidos por um pesar excessivamente longo considerando o grau de dependência afetiva em relação à pessoa que se foi,  enquanto outros apresentam uma estrutura emocional de auto-ajuda muito eficaz com resultados positivos em termos de recuperação em questão de poucos meses e transformam o sofrimento em aprendizado ao descobrir forças antes desconhecidas em seu interior considerando o apoio no meio social e familiar, crenças e outros aspectos importantes.
O estágio inicial de choque e negação ocorre quando  se evita acreditar na realidade atroz com a sequência da fase de raiva, revolta que não exclui Deus e, inevitavelmente, muita mágoa. O que não pode ser mudado exerce um poder de desafio muito grande quando a necessidade afetiva conduz a um sentimento irracional de que uma “volta” pode ocorrer.
O apoio no meio social e familiar na situação acima mencionada é motivo de controvérsia. Há opiniões que divergem principalmente sobre  o contexto onde deve ocorrer o desabafo,ou seja, a expressão da dor através  comentários verbais com a presença de um suposto ombro amigo.
Os que opinam que deve ocorrer somente com um terapeuta ou num grupo de ajuda não são poucos, pois alguns amigos, vizinhos  e parentes, num gesto típico da insensibilidade humana, podem passar a se esquivar de quem sofre, exercendo um suposto direito de defesa da amargura alheia e erguer um “escudo” contra o “baixo astral” representado pelo enlutado. Uma realidade tão cruel como a morte que a gerou.
Esse desamparo  é uma fase típica onde supostamente ocorre uma mudança de valores e a pessoa passa a reavaliar seus objetivos de vida. Coisas e situações que antes eram objeto de valorização, passam a ser consideradas fúteis e esse desvio de percurso na travessia pode representar uma mudança positiva na maneira de ser.  Uma evolução que coloca em segundo plano a materialidade das coisas e o verbo “ser” passa a ser uma meta de grandeza espiritual.
É um toque de realismo necessário saber que datas difíceis estarão presentes durante a travessia e a ausência de quem se foi vai marcar presença com uma dor peculiar no Natal, passagem de ano, Páscoa e outros eventos quando a presença do decantado “ombro amigo” representado por parentes e amigos é importantíssima. Tão importante como tentar evitar que o seu comportamento melancólico seja tão intenso a ponto de comprometer o clima alegre onde confraternização impera. São as sutilezas das relações humanas.
Ter a consciência de que nada será como antes não significa abrir mão do direito de ser feliz novamente.
Essa postura racional  pode e deve ser colocada em prática principalmente através da procura de ajuda profissional quando necessária e decisões importantes podem ser tomadas no sentido de ir em busca de momentos felizes. Exatamente aqueles que o ente querido, em outro plano de existência, gostaria que substituissem gradativamente a dor e a sensação de desamparo.
Marcos de conquista irão surgir durante a travessia. O sentimento gratificante da evolução representará o estímulo rumo à superação da tristeza diária quando o amanhecer, antes um símbolo de mais um dia difícil, poderá significar um início de atividades prazeirosas e se constituir na véspera de outro dia feliz. E assim será para todos que lutarem sem trégua contra as agruras do caminho.
Acreditar que a vida pode representar algo além da nossa presença no plano físico, assim como na existência de uma força superior ajuda bastante. É algo instintivo que acompanha o ser humano desde o “abandono forçado” do conforto do ventre materno.
Há grandes evidências da imortalidade do espírito e embora nossa capacidade limitada de entender a razão de muitos acontecimentos seja um obstáculo, é importante ter a consciência de que nada ocorre por acaso.
Com ou sem religiosidade, a crença consoladora de que um reencontro poderá ocorrer em outro plano existencial é o grande poder energético que nos impulsiona para seguir adiante.
Use e abuse dessa energia de acreditar na separação temporária.
Você merece ter esse alento.
                                                       Omar


- INVENTÁRIO DE UM LUTO DILACERANTE




Um título pomposo para registrar a essência  da fase posterior a essa tragédia  que maltrata o “que ficou” com a crueldade impiedosa do mais habilidoso dos carrascos: a saudade dolorosa.

Uma situação que se revela atroz, pois a única vantagem imediata parece ser o desabafo do choro e gritos nos momentos de desespero.
O resto é realmente curtir o flagelo da dor com vontade mínima de sobreviver o  que conduz à certeza de que aquele que  foi, simplesmente foi deletado de sua vida e passa a gerar memórias da felicidade em comum exterminada,  as quais somente adicionam combustível nas labaredas desse inferno emocional.
Paredes, mobília e outros detalhes conspiram para que o ambiente se transforme num show-room de recordações de intensa dor que somente as escassas horas de sono  podem trazer um alívio de fuga.
Uma fuga sempre amparada pela esperança de sonhar com a outra parte que foi arrebatada pela natureza implacável da morte. Aquela que invade lares harmoniosos e envolve em trevas uma relação feliz e iluminada. Cruel, muito cruel.
A iminência de se afundar nesse mar de dor se transforma em desespero que conduz à busca de ajuda de qualquer natureza: literatura, conhecimento de outros que sofrem com dor semelhante, enfim um lenitivo emocional que é em parte ilusório, pois em grande parte dos casos a ajuda médica e medicamentos prescritos parecem se constituir na bóia nesse Tsunami avassalador que traz a certeza absoluta de que a vida jamais voltará a ser a mesma.
Opções religiosas existem, porém, parecem amparar somente aqueles dotados da fé absoluta e inabalável nas divindades. Os que não compartilham esse sentimento irracional e, sem dúvida, eficaz, podem encontrar fechada a porta de entrada para essa alternativa. Racionalmente perdidos.
A convicção de que a dor é perene começa a ganhar dimensões importantes na maioria dos pensamentos e que só uma forma diferente de administrar a mesma parece ser a passagem de entrada na grande viagem no tempo. O futuro trará novidades sim.
Hábitos de rotina abandonados pela intensidade do sofrimento serão novamente incorporados à sequência da vida por uma estrada com abundancia de curvas de perigosas: as recaídas que ocorrem quando um avanço ilusório parecia irreversível. Sofrimento adicional sem dúvida.
A passagem dessa fase da vida é realmente a grande aliada dos sofredores. Ela ocorre com a lentidão que turva os pensamentos positivos, porém, felizmente é  ilustrada com a realidade de um sol nascente que surge no horizonte.
A luminosidade virá para aqueles que tiverem a possibilidade de emergir após a exposição ao sofrimento cruel. A saudade passará a ser administrada dentro da sua eternidade e a felicidade que parecia arquivada para sempre poderá ter seus momentos de existência para amparo e tutela da nossa trajetória na passagem por este planeta.
Nenhuma Certidão de Óbito poderá anular essa esperança.



                                              Omar