É evidente que quando se aborda a elaboração do luto, a referência a essa dependência de um estabelecimento hospitalar somente pode ser no sentido das perdas que ocorrem no mesmo. Um palco de sofrimento para espectadores impotentes como membros da família e amigos que sentem a esperança ser gradativamente minada apesar dos esforços da equipe médica.
Um sofrimento adicional para o paciente, além do perigo iminente da morte, é imposto ao mesmo: a separação do convívio familiar e dos amigos.
Esses espectadores impotentes fazem um curso intensivo do “glossário”de termos habituais do cotidiano local:
“estável”, “instável”, “intercorrência”, “procedimento”, “intensivista”, enfim, um desfile de palavras que nunca imaginaram fazer parte de uma situação de suas vidas, porém, foram lançados nessa circunstância da vida e da morte com requintes dramáticos. O imponderável surgiu e se tornou senhor da maioria dos pensamentos preocupantes quando alguém querido está no leito.
“estável”, “instável”, “intercorrência”, “procedimento”, “intensivista”, enfim, um desfile de palavras que nunca imaginaram fazer parte de uma situação de suas vidas, porém, foram lançados nessa circunstância da vida e da morte com requintes dramáticos. O imponderável surgiu e se tornou senhor da maioria dos pensamentos preocupantes quando alguém querido está no leito.
Aprende que o significado do verbo “ir” é diferente no local. Uma forma de eufemismo para o verbo “morrer” quando frases de consolo relativo podem significar um adiamento da passagem para outro plano de existência:
“ Se fosse mais idoso já teria ido...”. Uma referência à condição de resistência do paciente em estado grave.
Ou em uma resposta para satisfazer a curiosidade humana:
“ Infelizmente ele (a) se foi....” Quando o visitante percebe o leito vazio ao lado daquele do seu ente querido e pergunta para um membro da equipe de enfermagem sobre o motivo dessa situação.
São momentos marcantes para os que viveram esse sofrimento atroz com pensamentos negativos como os que cruzam a mente do familiar ao contemplar o seu ente querido na despedida quando se encerra o tempo estipulado para a visita (geralmente curtíssimo).
Seria esta visita a última ?
Nos contatos com a equipe médica temos exemplos da habilidade (ou da falta de) dos membros ao dialogar com familiares. Essa gama de perfis vai desde o médico sensível que procura, através da empatia solidária, se colocar no lugar dos espectadores impotentes e sofredores, até aqueles que tem a sutileza de um rinoceronte numa loja de cristais. Infelizmente, este último perfil não é uma raridade no elenco de atores.
Esses momentos que se sucedem nessa ante-sala estarão incrustrados de forma dilacerante na situação de luto e se incorporam à via crucis que vai desde a internação do paciente até a superação relativa da perda. Essa relatividade, obviamente, está dependente dos fatores tradicionais que caracterizam a individualidade do sofrimento. Cada um tem o seu tempo emocional para a elaboração do mesmo.
Após o sepultamento ou cremação, o estabelecimento hospitalar vira um local a ser evitado mesmo em termos de visualização. Um local que representou o cenário onde uma pá de cal foi o epílogo na relação com o ser amado. Até mesmo a via pública onde o mesmo está localizado passa a ser evitada e colocada fora de qualquer itinerário. Simplesmente fora do perímetro do nosso coração martirizado.
Resta a busca do amparo psicológico e espiritual. Um empreendimento que requer a determinação conjugada com a esperança de que a dor é enorme e temos que ser maiores do que ela. O estado de choque inicial é o ponto de partida para a conscientização de que os dias irão avançar no calendário e chegará a hora de retomar a vida e seguir em frente. Um novo capítulo na nossa existência terá o seu início quando usufruir das lembranças guardadas não vai mais simbolizar a angústia e sim a resignação construtiva com a aura de esperança de um reencontro num futuro imprevisível.
Se recordar é viver, que essa vida seja a ante-sala desse reencontro.
Omar








