sábado, 5 de janeiro de 2013

- REINVENTANDO O FINAL



A separação da pessoa amada causa tamanha consternação, que seu efeito devastador atinge-nos física e emocionalmente, para sempre”.

Ao ler essa informação, não poderia supor que, em breve, a  viveria intensamente.
Deixar meu companheiro de tantos anos, numa cova do cemitério, foi perder a razão de viver.
Tudo aconteceu tão rápido!  As imagens ficaram borradas, sem significado.
Eu tremia muito (será que ele também estaria com frio?) – apesar do calor da tarde - e tinha a boca tão seca (e o coração) como se estivesse num deserto há dias.
 “O lugar em que estamos no mundo nos dá a percepção de quem somos. Influencia nossas atitudes e nos fundamenta.”
Onde eu estava? Para onde eu iria tão só?

Alguém disse que, nos momentos de dor profunda, de grandes tragédias, o mundo fica isento de cor. Ficamos consternados e agimos como se uma carga muito pesada nos obrigasse a vergar. A impressão é que não suportaremos.
 “Deus só nos permite o peso que pudermos levar”. 
Se isso for verdade... “ Estou sucumbindo, sou frágil, Senhor”!
Alguém me obrigava a andar, mas meus olhos teimavam em ficar com ele, se negavam a deixá-lo sozinho.
Ainda hoje, 4 meses após a separação, acordo e o procuro ao meu lado.

Tenho a esperança de que, fechando os olhos e tentando dormir, conseguirei escapar de tão grande pesadelo:  a realidade.
Um pedaço de mim separou-se, ficou naquela cova rasa de um cemitério, em 3 de setembro de 2012.
“Recordar é viver”.

Conhecemo-nos numa festa. Eu, tão menina, ele um jovem formando. Minha primeira festa à noite, meu primeiro baile! Tive a certeza que a vida não me faria procurar, lá estava o meu homem, aquele que me acompanharia pela vida. Namoramos, até que eu tivesse tempo de crescer e com 20 anos de idade, fui a mulher mais feliz do mundo. Eu o amei e fui amada. Tivemos filhos e sonhos, nos fortalecemos nos momentos bons e nos não tão bons, crescemos juntos, aparamos inúmeras arestas.

Amigos, amantes, confidentes e cúmplices de indagações que nos consternavam e, que muitas vezes, rindo juntos, concordávamos que sozinhos, não conseguiríamos vencer.
A separação da pessoa amada cria um vazio existencial, difícil de ser preenchido.

Parece que não há consolo, que nada e ninguém conseguem aplacar essa dor que domina soberana.
Faço tentativas de sublimar essa tristeza. Ocupo-me de coisas triviais, travo uma batalha ferrenha dentro de mim.  Mas, apesar desse esforço hercúleo, caminho bem devagar.

Nos meus desvarios, procuro pelos cantos da nossa casa e nos lugares que adorávamos estar juntos, um pouco de alento pra minh’alma que chora de saudade.
Ele está presente nas minhas lembranças, nos meus sonhos, no meu dia a dia.

A vida desmoronou, espalhou os pedaços de mim. Está tão difícil recompor!
Dizem que o luto exige  seu tempo e promete se resolver dentro da gente. Quem sabe!
Penso nele, sonho com ele e quero com ele relembrar o que prometemos há 40 anos, numa fria tarde de setembro (sempre setembro).

Reivindico a lembrança daqueles votos, daquela frase que nos dissemos com olhos de amantes:
 “Prometo amá-lo(a) por toda a minha vida, com amor eterno...na alegria e na tristeza, amando-o, respeitando-o...
Peço-lhe licença, meu amor, para reinventar a frase final:
... mesmo que a morte nos separe!



Mariza Roth 



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